Baú de retalhos



Conheceu. Os olhos brilharam. Mãos trêmulas. Batimento acelerado.
Talvez fisicamente ele não fosse realmente como ela imaginara, apesar de possuir um corpo atlético.
Mas.
Seu cérebro a encantou, afinal ele sabia como conduzir uma conversa, era chamado "o advogado do diabo".
Acabou por casar-se. Mudança. Vida nova. Outro ambiente.
Ela deixou emprego, carreira, amigos e família. Só não imaginou ter que abrir mão da sua personalidade, liberdade e autoestima.
Era uma bela mulher. Vestido. Salto alto. Cabelos cuidados. Batom. Rímel.
Com o passar dos dias talvez porque ela se destacasse das demais mulheres de seu convívio acabou por matar-se.
Tornou-se outra.
Seus cabelos agora sempre preso, trocou os vestidos por bermudas, calças e camisetas; seus sapatos já não os calçava mais.
O batom envelheceu. O rímel secou.
Agora ele se sentia feliz, ela se anulou como mulher. Enxugou.Endureceu. Acabou.
Ninguém mais a olhava, nem o espelho a encarava.
Ela sentia saudade da mulher que fora; das unhas coloridas que traziam vida e sensualidade e percebeu que a mulher por quem era tão apaixonada, e era tão apaixonante gostaria de voltar a cena.
Mas.
Não conseguia. Não se amava mais.
Repensando sua vida tentava descobrir onde ela não percebeu que as promessas de não aprisionar ou deixá-la continuar sua vida eram vãs. Ele parecia apenas que precisava de um bichinho de estimação, ou nem isso, porque até mesmo um animal apreciado e querido necessita de carinho e uma certa liberdade para viver.
As pessoas que estavam longe tentavam fazer voltar aquela mulher deixada no fundo de um baú.
Presenteavam a mesma com roupas coloridas. Batom. Rímel.
Mas.
Ela se trancou em seu baú. Tosquiou seus cabelos e vestiu-se de retalhos.

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