domingo, 20 de janeiro de 2013

Vidraça




Era primavera. Talvez não quisesse ver as flores nem sentir o perfume no ar.
Trancou-se. Retomando assim o passado ...  o seu triste passado.
Iluminado pelas estrelas "decadentes" que beiravam a rua, que cheirava a cerveja e a fumaça de cigarro, sem contar as bitucas úmidas espalhadas a longo da sarjeta.
A primavera talvez fosse para ela o martírio e o sofrimento da perda da esperança e da vida.
Foi exatamente no desabrochar das flores que ele apareceu. Sorriso quente. Olhos enluarados. A paixão. O Romance. O suspiro.
Fez-se mulher novamente.
Amável. Afável. Angelical
Esqueceu por completo as noites em claro e o quanto mendigava por um corpo quente buscando, assim, enganar-se e aquecer seu coração em míseros minutos de satisfação.
Pegou-a pela mão.
Caminharam juntos lado a lado. Sol a sol. Descobriram-se. Renasceram ... primavera após primavera.
E no florir de setembro quando o ar perfumou-se ele se tornou luz. Encantou-se. Aromatizou.
Ela se trancou em sua dor e murchou. Despetalou-se. Entregou-se ao sofrimento. Vagou.
Já desconhecia por completo o cheiro de bebida, cigarro e também apagou do olfato o cheiro de orquídea e orvalho.
Sentou-se. Parou. Chorou. Apenas observou pela vidraça o vento espalhar o pólen multiplicando o colorido, a vida, a esperança, o calor e a lágrima a rolar em sua face.

4 comentários:

  1. Lindooo! Ainda mais porque te conheço um pouco de vc e dos seus sentimentos. Ta lindo prima.

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  2. 'Te conheço um pouco de vc' foi erro de digitação viu???.....kkk

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