quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Baú de retalhos



Conheceu. Os olhos brilharam. Mãos trêmulas. Batimento acelerado.
Talvez fisicamente ele não fosse realmente como ela imaginara, apesar de possuir um corpo atlético.
Mas.
Seu cérebro a encantou, afinal ele sabia como conduzir uma conversa, era chamado "o advogado do diabo".
Acabou por casar-se. Mudança. Vida nova. Outro ambiente.
Ela deixou emprego, carreira, amigos e família. Só não imaginou ter que abrir mão da sua personalidade, liberdade e autoestima.
Era uma bela mulher. Vestido. Salto alto. Cabelos cuidados. Batom. Rímel.
Com o passar dos dias talvez porque ela se destacasse das demais mulheres de seu convívio acabou por matar-se.
Tornou-se outra.
Seus cabelos agora sempre preso, trocou os vestidos por bermudas, calças e camisetas; seus sapatos já não os calçava mais.
O batom envelheceu. O rímel secou.
Agora ele se sentia feliz, ela se anulou como mulher. Enxugou.Endureceu. Acabou.
Ninguém mais a olhava, nem o espelho a encarava.
Ela sentia saudade da mulher que fora; das unhas coloridas que traziam vida e sensualidade e percebeu que a mulher por quem era tão apaixonada, e era tão apaixonante gostaria de voltar a cena.
Mas.
Não conseguia. Não se amava mais.
Repensando sua vida tentava descobrir onde ela não percebeu que as promessas de não aprisionar ou deixá-la continuar sua vida eram vãs. Ele parecia apenas que precisava de um bichinho de estimação, ou nem isso, porque até mesmo um animal apreciado e querido necessita de carinho e uma certa liberdade para viver.
As pessoas que estavam longe tentavam fazer voltar aquela mulher deixada no fundo de um baú.
Presenteavam a mesma com roupas coloridas. Batom. Rímel.
Mas.
Ela se trancou em seu baú. Tosquiou seus cabelos e vestiu-se de retalhos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário